A Helena de Machado de Assis
Eu preciso começar este texto dizendo que Machado é um gênio das palavras. Eu não sabia que alguém poderia ser tão descritivo com sentimentos e sensações. E o tom sagaz e sarcástico do autor? Helena é um romance poderoso e controverso, por vários motivos. A história se passa no Rio de Janeiro de 1850, quando o conselheiro do Vale falece, deixando um filho, Estácio, uma irmã, Dona Úrsula, e uma filha, que até o momento do testamento, ninguém sabia da existência. Helena se muda do internato para a casa dos parentes, cuja resistência inicial logo é desfeita ao perceber os encantos e habilidades pessoais que a moça de 17 anos apresenta. Conquistando o coração de todos, Helena é uma presença marcante na vida de todos, principalmente na vida do irmão, cujo ciúmes e carinho se tornam tema presente da narrativa.

Okay, este é o enredo. Agora eu preciso focar em alguns detalhes. O primeiro, que me incomodou desde o início foi o romance velado entre Estácio e Helena. Uma paixão platônica compartilhada entre dois irmãos. No caso, meio irmãos, uma vez que ambos compartilhavam apenas o mesmo pai. De 1876, quando foi publicado, até aqui, 2021, ainda é estranho considerar tal tipo de coisa. Sim, eu sei que somos, no fim do dia, animais mamíferos cujo conceito de família é uma construção social. Ainda que parte de uma narrativa, o conceito de incesto ainda é penoso de discutir, então talvez precisemos de mais uns cem anos para voltar nesse assunto. O que ocorre, e é plausível nessa história, é que os irmãos se conhecem apenas no fim da adolescência de Helena e no começo da idade adulta de Estácio, então sentimentos românticos e sexuais ocorrem de modo natural, deixando a racionalidade de lado. E não é como se eles tomassem partido desse sentimento. O valor moral que eles carregam é maior e os impede de tentar desfrutar de uma relação conjugal, mas isso tem efeitos colaterais e suas ações com terceiros refletem isso. Estácio se torna possessivo e controlador de Helena, além de adiar um pedido de noivado com Eugênia, cujo cortejo se estende desde o início do romance. Bem diferente dessa situação, mas que eu lembrei ao ler, no seriado da empresa CW, The Flash, o personagem principal, Barry Allen, perde a mãe ainda novo e o pai é preso como principal suspeito. Assim, ele vai morar como o chefe de polícia Joe West, que o cria como a um filho. E assim, ele cresce ao lado de Iris West, sua irmã de consideração, e cujo sentimento amoroso cresce com o passar dos anos. Depois eles namoram e se casam, e minha principal consideração é: eles não são irmãos? Eu sempre achei o relacionamento dos dois muito controverso, mesmo que eles não compartilhem consanguinidade. Mas aqui temos um ponto interessante para comparar com Helena: Estácio e Helena nutrem um sentimento por não terem sido criados juntos, diferentemente de Barry e Iris que cresceram juntos desde, aparentemente, seus onze anos de idade.
Fato é que, ao final, descobrimos que Estácio e Helena não compartilham os mesmos genes de parentalidade. Havia, na verdade, um grande estratagema para a garota ser incluída como filha do conselheiro. Mas não pense mal de Helena: suas intenções eram as mais nobres, ou pelo menos é isso que o narrador e os personagens dão a entender. Se existe algum culpado, está entre os mortos (a terceira temporada da série 13 Reasons Why mandou um abraço). Aos vivos, basta arcar com as decisões, boas ou más dos mortos, principalmente do conselheiro do Vale e da mãe de Helena, Ângela. Seria o nome um trocadilho que Machado pensou para caçoar com o leitor? Inclusive, muito à frente do nosso tempo, Machado parece ter criado a tradição do autor de novelas, Manoel Carlos, de dar histórias intensas para as personagens nomeadas Helena.
Seria de se pensar que o amor dos pombinhos iria se concretizar com a grande revelação de que, apesar da consideração do conselheiro do Vale, que adotou Helena como sua filha, Estácio e Helena não eram irmãos biológicos. Mas não se engane, caro leitor, este não é o Machado de Assis. Apesar de uma trama que me instigou a torcer pelo casal, mesmo sem saber por 70% da história se eles poderiam mesmo nutrir sentimentos uns pelos outros, esse romance não é romântico (perdoe-me o trocadilho). Até porque Machado não é romântico. Na verdade ele é sim, mas no plano das ideias. No mundo real, o determinismo do meio bate na nossa cara e diz que a vida não é bem assim. Você se lembra de Dom Casmurro? Bentinho e Capitolina, durante a adolescência, alimentavam uma paixão regada a mensagens platônicas, beijos roubados e planos de um futuro idílico. E não é incapacidade do autor: Machado escreve suas partes românticas cheias de floreios e sentimentos, fazendo o leitor se inspirar e torcer pelo casal. Mas assim como as sereias, o belo canto é só uma isca para te fazer naufragar junto com os personagens. Quando Bento Santiago e Capitolina se casam e conseguem colocar no papel o amor tão sonhado, o castelo de areia começa a se desmoronar. Aqui em Helena, o que impede Helena e Estácio são: 1) um senso moral com a sociedade que não sabia de todos os problemas e que talvez não fosse interessante eles saberem; 2) a vergonha de Helena por ter mentido para essa família, que a tratou com muita estima; 3) a saudade do seu pai biológico e a desolação por saber que ele a havia abandonado. Tudo isso leva Helena a estado de autopunição e desesperança por viver, que, ainda sem ter os sentimentos de Estácio revelados por ele, culmina com um estado de doença e morte. E assim, o que poderia ser um lindo conto romântico para a “andorinha viajante” se torna uma tragédia shakespeariana. Por falar nisso, Machado gosta bastante de Otelo, né? Tem alguma obra que ele não o cite?
Para mim, o final foi um desfecho que inutilizou os esforços de todo mundo. Santiago foge para que a filha Helena possa usufruir de uma vida de confortos. Ângela largou Santiago quando Helena ainda era uma criança, para que elas tivessem uma vida economicamente melhor. O conselheiro garantiu que o futuro de Helena fosse de bonança, mesmo que isso contrariasse seus outros parentes. Estácio, apesar de toda essa confusão que a Helena trouxe quando chegou em sua casa, tornou-se o seu eterno Romeu e a queria por perto, mesmo com a descoberta da farsa. Nada disso foi o suficiente e a tristeza de Helena superou esses esforços e culminou em seu falecimento. Seria o Machado dizendo que não adianta lutar contra a natureza? Para mim, como leitor, foi um gasto energético desperdiçado.
O que fica claro desde o início do livro é a personalidade forte de Helena. Para uma mulher naquela sociedade, seu ethos é algo que deveria remeter a passividade e submissão. Longe de esquecer-se do papel feminino na sociedade, como ela lembra, por exemplo, ao dizer ao irmão que ele é quem poderia lhe liberar para casar-se com Mendonça, Helena é, ou assim como todos nós, tenta ser senhora do seu destino e, mesmo nessa parte, completa o comentário dizendo que o irmão deveria aceitar, listando os motivos para isso, de modo persuasivo. Assim, seguir os papéis sociais não era desculpa para Helena ser apática e não agir de modo a conseguir o que queria. Helena manipula o irmão para conseguir andar de cavalo, ao fingir que queria aulas; persuade o irmão ao convencê-lo a pedir a mão de Eugênia em casamento, depois que o Camargo a ameaça, dizendo que iria expor seu segredo. A própria Eugênia, filha de Camargo, mostra-se tempestuosa e decidida no que quer. Quando sua tia fica enferma e ela precisa viajar, convence a todos de que quer Estácio ao seu lado, e o faz de modo a conseguir, mesmo a contra vontade do noivo. Até quando as coisas dão errado, Helena mostra-se dona de si. Ao invés de se submeter ao destino e as vontades que lhe impuseram, a garota se submete a um regime de alimentação e estresse que culmina em sua morte.
A chave do romance é a ambivalência de Helena, como demonstrado no trabalho de Ferreira e Perrot (2017) (1). Ainda sobre a cena de montaria, veja como Helena tem consciência de seu papel de submissão, ao descrever os sentimentos de um animal:
– Sim? – retorquiu Helena sorrindo –; estou quase a fazer-lhe a vontade. Não faço; prefiro admirar a cabeça de Moema. Veja, veja como vai se faceirando. Esta não maldiz o cativeiro;
pelo contrário, parece que lhe dá glória. Pudera! Se não a tivéssemos cativa, receberia ela o gosto de me sustentar e conduzir? Mas não é só faceirice, é também impaciência (2).
Neste ponto, fica claro que qualquer ação ordeira e tida na época como feminina é, para Helena, um meio para seus fins. E essa atitude é, para mim, extremamente inteligente e perspicaz. Soa também determinista, como retrato do momento literário brasileiro, o realismo. Ao tomar consciência de quem se é e de suas limitações, a personagem pode fazer uso do meio e de suas ferramentas para transformar sua realidade. Nada de revoluções! Uma luta por debaixo dos panos. Machado, assim, descreve mulheres que vão além de aceitar seu destino, do modo idealizado pelo patriarcado. Ele as descreveu como agentes individualizados lutando para atingir objetivos. Essa dualidade também é vista em sua personagem mais famosa, a Capitolina de Dom Casmurro. Mesmo na adolescência, a garota planejava seu futuro com Bentinho e o ajudava a planejar articulações com José Dias ou, ela mesma, agia de modo gracioso com sua futura Glória, Dona Glória. Não com dissimulação, mas, novamente, usando os elementos do meio social para atingir seus objetivos. No caso, um objetivo do casal: o matrimônio (3).
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